No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra
Carlos Drumond de Andrade
Ao leme do Curupira VIII - BVR, mirando o horizonte enevoado desta manhã, ao largo do mar de Coral, avisto uma ilha. E o poema de Carlos Drumond de Andrade não para de atormentar minha mente... "Não, você não vai encalhar, o rumo está ok, com folga suficiente", insisto em dizer racionalmente para mim mesmo. Mas depois de tantas experiências estranhas nestas regatas virtuais, continuo cismado.
No meio do caminho tinha uma pedra...
Que porra, por que tinha de aparecer essa maldita ilha no meio do caminho? Pior, nem um dos meus modems 3G está conectando em 3G. Um está sem sinal (o da Vivo) e o outro (da Claro) pega só em 2G. Afinal, o que acontece com a telefonia brasileira. A gente paga caro, aceita, se humilha, paga, engole sapos, fica ouvindo musiquinha por horas no telefone (e sua ligação é muito importante para nós) e essa coisa (a telefonia) insiste como a ilha em ficar na minha proa.
No meio do caminho tinha duas pedras...
O grande amigo comandante do Oh Locoo - BVR não pára de me mandar mensagens pedindo para eu arribar, ir prá cima dos gringos. Caríssimo (parafraseando o desterrado), adoraria fazer isso, mas tem duas pedras no meio do meu caminho. E se a posição da ilha não está muito correta? E se desconecta geral meus modems quando eu estiver num rumo cinco graus para o Sul do destino? Desço de volta para o oceano Índico e choro? Não, meu amigo e meus amigos, que não param de mandar mensagens torcendo bravos com os gringos que insistem em querer ficar na frente de nossos maravilhosos cisnes brancos, não vamos nos apressar. O apressado come crú, já diria meu amigo Mario Cadecaro (dentista japodescendente), e é muito bom comer crú, mas neste caso eu prefiro aguardar o cozimento...
Como o apressado que se indignou porque não fiz o que ele teria feito... Lembrando que em primeiro lugar não pude, e depois, procurei um meio de compensar a perda do ponto ideal para bordo. E consegui, ou o Curupira VIII - BVR não estaria em 8. lugar nestes finalmentes... O apressado, se lhe passasse o comando do veleiro, confuso com os termos proa e popa, alheta e punheta, guarda-mancebo e guarda rodoviário, provavelmente estaria rumando feliz para Bali imaginando estar descobrindo Nova Singapura.
Enquanto isso, mais ao Sul, desta vez ao leme do bravo Ondazul BVR, que ontem estava desesperado em ventos ridículos e estreitos estreitíssimos, em posição acima de 2.000, hoje está recuperando posições e já está quase nos 300. Heróico. Bravo barco e tripulação, embora os tripulantes tivessem tentado me enforcar com uma adriça por ter escolhido esta rota masoquista.
Bem, vamos ver no que dá. Eu já estou nervoso o suficiente, peço silêncio no rádio até terminar esta regata. Espero que as pedras se esfarelem e sumam de nossos caminhos... Bons Ventos!
P.S. Essa ilha idiota aí no caminho chama-se Pulau Penjantan (em Indonésio isso significa "pedra no caminho").
Diário de bordo de um skipper virtual, à bordo do Ondazul BRA(e o Curupira VIII como reserva), com a bandeira brasileira sempre hasteada, e navegando contra alguns dos melhores comandantes do planeta...
BEM VINDO!
Estou retornando a esta blog, depois de meses desconectado, por motivos particulares. Mas nesse meio tempo, continuei participando desta paixão (minha e de todo velejador) pelas simulações de regatas. As chamadas regatas virtuais, algumas de volta ao mundo, tomam nosso tempo e noites de sono, mas o desafio de competir contra os melhores do mundo, representando o Brasil, vale a pena.
Bem vindos à bordo!
Bem vindos à bordo!

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